quinta-feira, 22 de maio de 2008

O visitante (conto)


A taverna estava praticamente vazia. Já era muito tarde e os poucos clientes presentes já estavam embriagados de cerveja e vinho baratos; até os músicos da casa estavam caídos no palco adormecidos. A rapariga percebeu que não conseguiria nenhum dinheiro aquela noite e se levantou do balcão abaixando a barra do vestido volumoso. Quando já estava seguindo em direção a porta viu a mesma ser escancarada com agressividade...
...Ela despertou deitada em uma cama requintada e confortável com a melhor palha da região sob os lençóis. Lá fora começava a chover muito forte, na verdade era uma tempestade. A rapariga tentava entender tudo e lembrar com tinha chegado ali. Quando estava tentando rever os últimos acontecimentos notou que era observada. Um homem perto da janela, na escuridão, fitava a sua figura confusa. Um relâmpago iluminou seu rosto e ela percebeu o que ele era...
Sara acordou subitamente, como se tivesse sido convocada a despertar do pesadelo que estava tendo. A noite estava silenciosa em seu apartamento de um quarto mantido a muito custo com um salário de jornalista freelancer e revisora. A lua estava cheia e iluminava o cômodo ainda sem cortinas. Ela levantou da cama e foi até o banheiro. Sem acender as luzes lavou o rosto e encarou seu reflexo à meia luz da lua. Depois desse sonho ela não podia mais dormir, acendeu a luz da sala e pegou umas folhas em branco e uma caneta. Estava fazendo tudo meio inconscientemente como se fosse uma marionete de alguém. Começou a escrever e não sabia de onde vinha a inspiração e nem porque escrevia aquilo. Nunca escrevera histórias assim, nem gostava muito desses assuntos.
A caneta corria sozinha, mas dava tempo de ler o que estava sendo escrito. Ela contava a história de uma mulher do século XV e de seu encontro fatal com um vampiro. Estava narrada em primeira pessoa como se a própria mulher estivesse escrevendo naquele momento. O núcleo principal era a vida dessa mulher, mas o texto revelava coisas perturbadoras a respeito do mundo dos vampiros detalhes íntimos que só as próprias criaturas das trevas deveriam saber. As semelhanças com o pesadelo de Sara eram óbvias e ela não ignorava isso. Estava fascinada com aquela experiência paranormal.
O diário dessa mulher da Idade Media era muito intrigante. Ele narrava brevemente a história de sua vida, na primeira parte, até a noite em que fora capturada por um vampiro em uma taverna (e aí que a história ficava interessante). Esse vampiro a manteve presa por alguns meses se alimentando dela constantemente e deixando-a cada vez mais fraca e louca até sua morte inevitável. Depois a história contava que ela havia decidido permanecer neste plano após a morte para vingar-se da coisa que a matou. Transformou-se num espírito errante e acompanhava a passagem do vampiro através dos séculos apesar dos esforços dele para exorciza-la.
As páginas foram sendo escritas. Dez páginas, vinte, cinqüenta, duzentas e, quando a qüinquagésima quarta foi finalizada, a caneta parou. Sara olhou para a pilha de folhas formada ao lado e ficou impressionada. Eram quatro e meia da madrugada e mesmo assim ela estava sem sono. Olhou pela janela aberta a noite até agora silenciosa e esticou os braços para cima com preguiça. Sua mão doía e os dedos estavam duros e imóveis ela levantou-se, apagou a luz e atravessou o corredor para ir ao banheiro de novo. Ela pensava no sucesso daquele livro tão inusitado, com certeza iria publicar, utilizaria seus contatos na indústria e faria com que aquela história fosse conhecida mundialmente. A tragédia da vida de uma rapariga medieval e os segredos macabros da vida dos vampiros. Só faltava um título e estava pensando nisso quando voltava para sala escura para guardar a pilha de folhas no seu arquivo pessoal. No corredor ela percebeu uma brisa forte entrando no cômodo e apressou-se para que o vento não espalhasse as páginas soltas, mas, quando chegou, toda a pilha havia sumido sem explicação. Ela olhou sem acreditar para a mesa vazia e a caneta derrubada no chão estava decepcionada. De repente ocorreu-lhe um pensamento e ela compreendeu o que tinha ocorrido naquela noite onde ela servira de instrumento na vingança fracassada de um espírito errante contra um vampiro secular.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Seu nome em vampírico

Se você fosse um vampiro, qual seria seu nome? Esse site diz pra você:
http://www.emmadavies.net/vampire/default.aspx?firstname=&lastname=&mf=0&submit=seek+vampire

O meu é esse aí que tá no blog.

Capítulo um: O abraço

Fernando voltava para casa depois de mais uma noite pelas casas noturnas de São Paulo. Caminhava para esquentar o corpo naquele clima frio que nem o cachecol e o casaco grosso bloqueavam. Tirou um cigarro de bolso e acendeu acreditando que a pequena chama pudesse combater o vento gelado das três da manhã. Continuou seu caminho a passos largos observando a rua em volta. A cidade era bem diferente sem a presença do sol, aquela via que ficava completamente congestionada de dia agora estava deserta. Recolocou o maço no bolso e tirou dele um cartão. Examinou o pequeno retângulo de papel com o cigarro entre os dedos e um sorriso nos lábios. Estava escrito Cecília Vergas e o número de um telefone e baixo. Imaginou que o sobrenome era italiano e lembrou-se da dona dele. Uma loira de sorriso dissimulado rosto angelical e seios comprados com o melhor cirurgião plástico do estado. Ele a conhecera na última boate que fora naquela noite e sentiu uma atração imediata. Puxou-a para um canto afastado de suas amigas com atitude e isso garantiu o cartão que segurava.
O rapaz virou a esquina numa rua de paralelepípedos e notou a presença de uma mulher do outro lado da rua virando ao mesmo tempo. Ele não pôde identifica-la muito bem o rosto dela parecia estar sempre na sombra de longe. A mulher olhou fixamente para Fernando deixando-o embaraçado. Ela atravessou a rua sem olhar para os lados, ainda com o olhar sobre seu companheiro noturno, seguindo uma linha até ele. Seu andar era característico, estável, a altura dos ombros aparentemente não se alterava nem mesmo quando ela passou do meio-fio para a rua. Antes de chegar até a outra calçada ela disse:
_Tem um cigarro?
_Claro._ respondeu o homem oferecendo o maço e observando a mulher pela primeira vez.
Era morena, tinha cabelos curtos e pele branca. Apesar do frio vestia roupas muito finas, transparentes em algumas partes, e um sobretudo vermelho aberto.
_Qual o seu nome?
_Fernando.
_Prazer, nando, pode me chamar de Courtney.
_É americana?
_Não. Sou internacional._ afirmou ela sorrindo.
Os dois já estavam caminhando juntos sem perceber e num ritmo lento. Analisavam-se a todo o tempo; olhares fixos ou de cima a baixo lançados por ambos. Estavam se provocando.
Fernando observou que Courtney fumava de um jeito curioso, não tragava, praticamente não deixava a fumaça na boca. Ele a interrogou sobre isso:
_Nunca fumou?
_Fumei durante séculos.
_Porque não traga?
_Depois de tanto tempo já não tenho pulmão._ respondeu ela maliciosamente.
Ele fingiu acreditar e entrou na brincadeira.
_Você não parece tão velha para não ter pulmão ou ter fumado tanto.
_Acredite sou bem mais velha que você.
_Mas, aposto que sou mais experiente.
_Tenho certeza de que é mais convencido, né?
_Talvez. Não te conheço ainda.
_Quer me conhecer?_ ofereceu a garota demonstrando pela primeira vez seu incrível sex appeal.
_Talvez._ insinuou o homem com firmeza.
Courtney sorriu e apagou o cigarro na sola da bota. Sem Fernando esperar ela retirou o cachecol dele num movimento rápido dizendo:
_Adorei seu cachecol, laranja é minha cor preferida_ revelou enquanto colocava a peça sobre o pescoço.
_Não fica tão bem em você como fica em mim.
_Só nos seus sonhos, gatinho._ disse ela piscando.
Nesse momento houve um silêncio causado por falta de assunto e a mulher olhou de soslaio o pescoço nu do outro que empalidecia com o frio. Ele olhava os seios dela.
_Você ta olhando meus peitos?_ perguntou ela ao notar, como se fizesse uma pergunta qualquer.
_E se eu estiver?_ desafiou Fernando.
_Nesse caso, vou ter que te castigar.
Cortney tomou a iniciativa e puxou o parceiro para junto de si dando um beijo rápido e conduzindo os dois para um beco adiante. Os beijos abrasivos continuaram e a mulher mantinha as mãos do rapaz na parede.
_Você vai acabar ficando doente se deixar esse pescoço descoberto._ falou enquanto beijava o pescoço dele.
_Eu sei que você cuida de mim se eu ficar._ brincou o homem.
_Eu vou cuidar de você agora, vou deixar seu pescoço aquecido.
Ao dizer a última frase Courtney segurou Fernando na parede com força e exibiu uns caninos longos que cravou na pele dele. A sensação de ter o sangue sugado foi curiosa para ele, era como se estivesse entorpecido por uma droga, não sentia dor e apesar da ameaça de morte iminente não queria que acabasse. O prazer inicial durou poucos segundos. Uma dor que aumentava a cada respiração se apossou de seus sentidos e não conseguia mais pensar claramente, quanto mais reagir. Agora sentia sua vida saindo de seu corpo verdadeiramente e da pior forma possível. Tentou gritar, mas o som ficou sufocado na garganta. Era como se estivesse se afogando, mas muito mais dolorido. A vampira parou de repente, mas a dor não. Tirou um punhal do bolso e cortou o pulso de leve. Posicionou a ferida sobre a boca da vítima, que relutou e tentou virar para o lado oposto, e deixou algumas gotas. Subitamente a dor cessou, mas, depois de alguns segundos, deu espaço a uma pior ainda, muito mais intensa que pareceu cegar-lhe. Essa tortura ainda persistiu por minutos até que ele perdeu a consciência. Courtney observou tudo calmamente com o punhal na mão e com o corte já cicatrizado.


domingo, 18 de maio de 2008

A traição (conto)


A taça de vinho na mão de Vallerius repousava sem que seu conteúdo fosse ingerido. Era um hábito mortal que ele tinha mantido, sempre observava a noite com uma bebida na mão. Do outro lado da janela, parcialmente coberta por uma cortina grossa de veludo, a chuva assolava o vidro incessantemente.
_ Olá, Vallerius.
Disse subitamente uma voz que vinha de um canto mal iluminado ao lado da estante de livros.
_Olá, Leonardo.
Saudou Vallerius sem nenhuma surpresa na voz, já que havia notado a presença do outro vampiro há muito tempo.
Um relâmpago riscou a noite do lado de fora e iluminou o rosto dos imortais. O intruso agora saía de onde estava e se posicionava no centro da sala ao lado do divã.
_Ela morreu. Miranda._ Revelou Leonardo fitando o outro.
_Eu já sei, eu senti. Ela é uma de minhas crias, esqueceu?
_Pensei que quisesse conversar.
_Por que pensou isso?
_Não sei...
Os dois ficaram em silêncio por muito tempo ouvindo só o barulho da chuva. Então Vallerius retomou a conversa.
_Sabe, ela foi a primeira que eu abracei e era a última que restava dos meus filhos.
_Eu sinto muito.
_Não, não sente.
_Bom, se pudesse sentir sentiria.
_Obrigado.
_Quando a abraçou?
_Há muitos séculos. Não menos que três. Ainda lembro bem. Ela estava numa festa de casamento e eu procurava uma presa. Seu rosto iluminado pelo fogo chamou-me a atenção. Ela foi a primeira vítima que falou comigo na hora em que ataquei. Todas as outras gritavam ou choravam ou até ficavam em silêncio enquanto eu sugava-lhes a vida, mas ela não. Ela pediu-me para parar e depois me convenceu a torna-la imortal. Você não acreditaria na lábia que Miranda tinha.
_Ela era uma mulher incrível mesmo.
_Não pretendo abraçar mais ninguém. Agora que todas as minhas crias se foram eu viverei sozinho para o resto da eternidade.
_É claro que não viverá. Eu sempre estarei ao seu lado quando precisar.
_Obrigado meu velho amigo.
Vallerius pousou sua taça sobre uma pequena mesa que se encontrava próxima. Com uma rapidez sobre-humana foi até o outro lado do aposento e pegou um velho violino que estava apoiado numa cadeira ricamente trabalhada. Mais uma vez, demonstrando seus poderes, ele se posicionou no centro da sala de frente para Leonardo e com o violino no ombro. Para olhos não treinados parecia que o vampiro tinha se teletranspotado de tão grande que era a velocidade de seus movimentos. Ele fixou o olhar em Leonardo e começou a tocar uma melodia muito triste que rapidamente se transformou em notas furiosas sobre as cordas. Enquanto tocava ele disse:
_Esse instrumento é uma relíquia, foi um dos primeiros que foram fabricados o que me torna um dos primeiros violinistas da história. É uma pena que ninguém saiba. Todos esses ornamentos na madeira foram acrescentados por mim.
_É realmente magnífico.
_Sabe, eu já sabia que Miranda não estava mais entre nós, afinal ela é minha cria,mas você não me disse quando descobriu.
Ao ouvir essas palavras Leonardo, que estava hipnotizado pela canção, despertou de repente e olhou assustado para Vallerius. Toda a ação que se sucedeu não durou mais de um segundo, o que era muito tempo para aqueles poderosos anciões. Ambos exibiram suas presas, mas, Leonardo mal teve tempo de reagir; Vallerius partiu o violino em dois sem nenhum remorso e utilizou o braço de madeira como estaca cravando-o no coração do outro vampiro e selando sua imortalidade para sempre.
_Eu tinha certeza que era você quem estava eliminando meus filhos seu Judas. O que pensou? Que isso me aproximaria de você? Eu te condeno por ter matado seus iguais. Que Lúcifer não tenha piedade da sua alma.
Vallerius pronunciou essas palavras com verdadeiro ódio e quando terminou de falar cuspiu sangue no rosto do outro, que já se consumia pelo fogo que antecedia o seu destino dali pra frente. O vampiro vitorioso sorriu mostrando seus caninos desenvolvidos, sua vingança estava feita.